quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Afeto

Sonho besta, daqueles bem bobos e sem nexo, noção ou contexto certo.
Os alunos apresentavam peças na escola, de repente, "não mais que de repente", parte do elenco de La Casa de Papel adentra o palco e fala algumas poucas frases, como se apresentassem alguma peça. Fim da apresentação, muitas palmas, sei lá porque - no sonho - caí no choro. Acordei. Pensei o tradicional "ué". Abri o Instagram e tinha uma mensagem do Padre Fábio de Melo.
Acabei com a "sensação" de que o que me move é a emoção. É abraçar. é sentir, é tocar, é encostar nas pessoas. É ter gente humana e ser humana na sala de aula. É isso, é por isso e para isso que me tornei professora.

Esse ano vai ser "osso". Vou usar o termo "bastante'; então... bastante desafiador e desafiante para mim. Por razões várias. Especialmente, talvez, porque, nem tudo é para sempre e o que temos como "chão" nem sempre estará ali. Então, me permitir que eu seja eu, do meu jeito, com meu afeto, é tudo que posso fazer por mim. E para os outros.



quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Melissa

As vezes escrever é conseguir respirar. E é por isso que tento escrever agora.
Primeiro o susto. O cérebro travou, não entendi muito bem, depois consegui pensar e compreender: de novo, novamente, mais uma vez a vida vem e me atropela.
Pensei mil coisas. Não consegui formular nada. Agora a noite um estalo, e corri ao sótão vasculhar minhas memórias empoeiradas. Duas horas e nada, absolutamente nada. Encontrei meus resultados de ENEM e suas notas de redação que me enchiam de orgulho, encontrei cartas da minha irmã, cartões de aniversário de um amiga muito querida que hoje não é nem sombra do que já foi; encontrei redações que fiz para meus colegas, anotações e bilhetinhos de quando eu era criança, muitas preciosidades que hoje nem sei o que são. Encontrei os arquivos da Agrotécnica, listas e rascunhos dO Estopim, reclamação ao diretor, textos de teatro... Uma infinidade de memórias. E não encontrei o que procurava.
Logo que soube que a Melissa "luarizou-se" a primeira coisa que consegui ouvir foi a sua voz, tão gostosa, tão acolhedora, tão inexplicável. Lembro como se a tivesse ouvido ontem, e lembrei do seu sorriso. E aquilo ficou indo e vindo.
Enquanto não respirava, incrédula e me doendo inteira, lembrei que quando era bixo na Agro, Melissa era do 2º ano, veterana. Tínhamos o "desprazer" de ter aulas na Área Nova no mesmo dia que a turma dela. Todo mundo lembra como eram veteranos em 1999: um saco. Mandando em tudo, podendo tudo. Rezava a lenda que a gente não podia dizer não. JAMAIS.
Não lembro como foi nosso primeiro encontro. Eu era extremamente tímida, passava o recreio na porta da sala de aula. Mas lembro que ela nunca deixou ninguém fazer nada comigo, nem pedir nada, nem incomodar, nem mandar recitar "Os direitos dos bixos", nem nada.
O começo era difícil, mas ela sempre estava lá, com os olhos e ouvidos bem atentos pra orientar onde sentar e a quem chamar.
A doçura dessa criatura, é algo que só quem cruzou seu caminho vai conseguir tentar explicar. Uma doçura e uma força sem explicações.
Parei e comecei a pensar "o que fazer?" "O que posso fazer?" e a resposta bem grande era sempre a mesma: NADA. Um grande, um enorme, um gigantesco e dolorido nada. 
Quando a morte chega, ninguém pode mais nada.
E aí eu lembrei mais ainda, com toda força o quanto isso dói.
A Melissa é uma das pessoas mais incríveis que conheci. Pensei tanto hoje nela, e no nada que posso fazer, e lembrei o quanto dela em mim ficou sem eu nem perceber: uma força bruta num coração de açúcar. Eramos mulheres no meio de muitos homens; ela foi acolhida, mão estendida, carinho, visão, porque ela conseguiu me enxergar, mesmo que eu tentasse me esconder. Ela falava e de alguma forma, todo mundo ouvia.
O amanhã não chegou de novo... Mas tem coisa mais bonita do que viver em semente dentro de outras pessoas que foram cativadas? Meu "nada" me trouxe tantas lembranças, tanta beleza, tantos sorrisos e risadas, e a certeza de que um aparente nada pode esconder muito...
No sótão, caixa por caixa, papel por papel não encontrei nada.
Última tentativa, revirei meu quarto. Na última caixa, há menos de meio metro de distância da minha cabeceira encontrei o que queria: o bilhete que ela me deu quando terminou o Médio.
E de novo eu aprendi que as vezes a gente procura, revira o mundo, vai até a China, mas o que precisa tá ali do lado, na cabeceira da cama, ou só dentro do coração.

Estou triste demais.
O "amanhã eu escrevo" não existe mais. 
Você que chegou até aqui não me escreva "sinto muito" ou algo do tipo, me faça um favor: vasculhe sua memória, encontre uma pessoa especial da sua vida e envie um "oi, sumida" "que bom que tu tá viva". Não precisa entrar em detalhes, só faça, só vá. E encontre dentro de ti o motivo dessa pessoa ter sido tão linda em tua vida, no teu caminho.

Estou muito triste. E cada vez que escrevo isso é uma tentativa de sentir menos.
Hoje percebi o quanto aprendi com ela e o quanto de força feminina ela me ensinou.
A vida não para e não espera a gente ter tempo ou fingir que vai arrumar um tempo. A hora de desligar do que não interessa é agora, tem muita gente boa por aí morrendo de saudade.

Sinto muito, sinto demais pela perda de todos seus familiares e amigos.
Uma vez uma colega da Agro, em meio a uma perda um colega nosso disse "saudade é o amor que fica". Melissa espalhou muito amor. 
Mais do que nunca, Chicó, João Grilo e Nossa Senhora vão me lembrar de ti.

"Valha-me Nossa Senhora, Mãe de Deus de Nazaré! A vaca mansa dá leite, a braba dá quando quer. A mansa dá sossegada, a braba levanta o pé. Já fui barco, fui navio, mas hoje sou escaler. Já fui menino, fui homem, só me falta ser mulher."




terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Era uma vez uma sonhadora, cheia de ilusões, sonhos e bem quereres. Tinha uma boa vontade e uma fé infinitas. Tinha um pé no mundão de meus Deus e outro dentro de casa. Aprendeu que o mundo era maior do que o lugar onde vivia. Conheceu um rapaz. Namorou. Um dia descobriu que aquilo não era namoro, nem vida, era aprisionamento. Mental. De repente ela colocou a mão na maçaneta da porta e saiu pra nunca mais voltar.
Era uma vez uma destemida. Cheia de sonhos, de quereres e muitas vontades. Sem papas na língua, sem medo, com grandes planos, grandes sonhos e enormes vontades. Fazia o que queria, corria atrás do que sentia. Quando colocou o pé no mundo pela primeira vez, se agarrou no braço da sonhadora e suplicou pra ir embora. Ficou. E se divertiu como nunca. O mundo mudou. Portas e fronteiras se abriram. Conheceu um rapaz. E o fim começou. Suspirava, falava menos, sorria contido, foi peneirando suas ideias, peneirando sonhos, foi diminuindo, foi sumindo.
Hoje eu só consigo pensar em como eu consegui e ela não... Tão mais forte e valente...
Não há sombra dela... Talvez nem minha. Mas ela... Como alguém pode reduzir outro alguém dessa forma...

domingo, 19 de agosto de 2018

O Roger não viu a internet se tornando o grude do povo, não viu o Facebook, nem o Instagram. Não viveu a chuva de memes e gifs e vídeo de cachorrinhos fofos e as idiotices da nossa "velha" idade. Não foi pra maratona, não fez maratona de séries, não concluiu a faculdade, nem voltou pra nos encontrar. Provavelmente não seríamos mais amigos próximos, mas agricolino é agricolino e - podem negar - todos temos um fio invisível nos ligando pra sempre (chupa, riquinho!).
Se é pra pensar, gosto de pensar que ele teria uma linda vida, bem divertida, sem perder um pouco daquele ar da graça que era dele. Ele teve uma linda vida, feliz, alegre. Um bom amigo, um bom colega, protetor, querido, divertido! Foi uma sorte imensa viver no mesmo tempo que ele.
Roger não ficou velho, não branqueou cabelo, não muita coisa.
Mas o Roger foi muito sim, muita coisa bonita.
14 anos é um tempo enorme...
Sempre encho os olhos de água quando penso nele nesse dia. Sei lá, não precisa ter uma explicação, e acho que sempre vou encher...
Por que escrevo sempre? Pessoas não devem ser esquecidas. Pessoas devem ser lembradas. E acho que lembrar do Roger é saudar um pouquinho a existência dele, é ajudar a sempre viver.

Um abração, meu querido!

quinta-feira, 8 de março de 2018

Mulher - todo mundo mete a colher

São muitas hashtags. Cada comércio cria uma, cada movimento outra, cada ideia mais uma. E eu só queria - ou não queria - escrever alguma coisa qualquer.
Pensando, hoje me ocorreu que para o tal Dia da Mulher, para o #MeToo, para #EuTambém, para a vida diária, adoraria que as pessoas parassem de julgar o livro pela capa, de olhar pra minha cara e presumir o que sei e o que não sei. Adoraria que parassem de perguntar de onde vim, pra onde fui, qual é meu curriculum vitae, o meu sobrenome, endereço e número do RG, por presumirem que meu rosto revela tudo o que há pra ser revelado e o que não há também.
Sou pior por ser nova demais? Sou pior por ser velha demais? O que é que a minha cara vai dizer?
Me dei conta que, com absoluta certeza, a insistência não é a mesma para qualquer colega homem, mais jovem, mais velho, do que eu.
A minha cara tem mancha de sol e de remédio (talvez), elas começam a me incomodar, mas nada ainda como a mancha vermelha na ponta do meu nariz. Nossa! Ela sim tinha o poder de me matar. Ainda a enxergo DIREITINHO nas fotos antigas. Na minha cara tem rugas, as mesmas que eu bati o pé, finquei a pata no chão e precisei fugir da profissional que queria MUITO que eu aplicasse botox para ser mais feliz (eu ou ela?).
Meus melasmas tem tantos pesos... Tem a cicatriz da vídeo, tem a "bendita" endometriose, tem a desgraça de tudo o que ela traz. Não posso nem me queixar, antes da vídeo era incontavelmente pior.
Vivemos acorrentas a remédios. Vivemos marcadas por sentenças. ("mais" 6 anos...)
Quando eu dançava, em uma época, percebi que não "reconhecia" mais o meu próprio rosto se não estivesse "montada". Que a maquiagem era a minha segurança.

Lembrei do dia que sei lá que santo baixou, abri minha revista de adolescente e descobri que eu não estava ali, que então era assim que as gurias eram, e corri esfregar meus dentes com pasta de dente e escova pra ver se algo teria como ficar parecido. (reviro os olhos de lembrar desse momento patético)
Uma vez, na escola técnica, não lembro o que fazíamos, um colega (foi bem inocente a preocupação, sério) me olhou todo encabulado e perguntou se não ia quebrar minhas unhas. Só lembro que fui lá e fiz. De boa. MAS lembro do professor que usou ironia pra dizer que não podíamos fazer algo por causa das unhas.
Fiz meu ensino médio em escola técnica, com unha comprida e sempre bem pintada. As únicas coisas que me neguei a fazer foram chegar perto de galinha viva e matar qualquer animal.

Tu acha que alguém vai gostar de ti? Tu acha que alguém vai querer ficar contigo? Tu não serve pra casar. Tu não é séria. É nojento como tu come. Não usa salto, tu não pode ficar maior do que eu. Ela ainda é melhor do que tu. Os piores a gente coloca atrás, com a desculpa de que são altos.

Tenho preguiça mental de repensar tanta merda. De lembrar, de reviver. Não preciso mais disso.
Infelizmente essas "merdas" moldaram muita coisa, estragaram incontáveis.
A gente tem cara de Mulher Maravilha, mas é cada besteira que tem que viver... Cada asneira que precisa ouvir todo santo dia...

Dia da Mulher não é flor. É fechar a boquinha e colocar o miolo pra pensar, porque a gente se "frode", mas propaga essa "frodidão", ou tu pensa que é só homem que questiona meu conhecimento, porque jura de pé junto que essa carinha calejada tem 20 e poucos anos?
(e assim é pra tudo nessa vida, o exemplo seguiu pra reflexão geral)

Beijos,
Eu

sábado, 30 de dezembro de 2017

Resoluções pra 2018

- Estar mais próxima de quem faz bem pra gente e cuida da gente e gosta da gente;
- Cuidar de si mesma, se priorizar, se valorizar;
- Ler de novo - e praticar - os dois itens acima.

Porque se não está no item 1 e detona o item 2, a gente não precisa ficar carregando pra cima e pra baixo, de novo, mais um ano, novamente. Amém. (e amem!!! Amem muito!)

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Saudade ano 3

É sempre um semi-inferno particular essa data, essa época, essa semana.
Agora, na hora "das postagens", caiu a ficha.
Quero escrever e não quero escrever. Eu sinto saudades. Muita, sempre. Todos os dias me lembro, penso, sinto muito, muito, muito.
Eu sei, tá tudo bem, mas eu sinto. O problema é comigo, não ela. Ela tá lá em cima, fazendo estripulia, mordendo a Luna e correndo demais. Ela já me avisou que tá tudo bem, mas... É sempre uma saudade. É pra sempre uma saudade.
Minha vida sempre foi com ela. E continua sendo. De outra forma.
E dá tanta saudade...

#Mona #SaudadeAno3